Vegetar também é uma forma de se morrer em vida
Falta de coragem de enfrentar seus problemas.(...)
Falta de coragem?!
Com certeza se estamos 100%, temos condições de identificar e resolvê-los, mas nem todos tem a sorte de estarem [100%] bem.
Nunca pensei em me suicidar, mas vegetar também é uma forma de se morrer em vida.
A depressão nada mais é do que morrer para o mundo e ter essa consciência, é uma sensação interminável, [...] dando o exemplo do túnel, você não vê uma alternativa, não participa, é como se flutuasse, vindo não sei de onde e indo pra não sei onde.
Ninguém procura estar assim.
Simplesmente acontece.
Um casamento termina, mas você ainda tem o filho, o trabalho, seus pais e você continua...
De repente seu pai vai para a UTI por causa do coração e fica agosto e setembro internado, mas você ainda tem o seu filho, o trabalho e sua mãe e você continua...
Enquanto seu pai está internado, sua mãe sente umas dores e repete todos os exames feitos em junho que deram negativo. O resultado agora foi positivo. Cancer. Tem que operar urgente!
Seu pai vai para casa em setembro e sua mãe é operada no início de novembro, mas você ainda tem seu filho, e o trabalho, e você continua...
Você precisa estar perto de seus pais, perto de seu filho e tem o trabalho, que não pode parar, tem que continuar a viver, pagar contas e você continua...
Você não mora perto de seus pais...
No trabalho resolvem fazer mudanças, mandam pessoas embora, amigos seus, você não vai embora, mas tem que segurar as pontas...
Ainda tem o filho e preciso continuar...
Janeiro. Férias na Creche... E agora?
Quimioterapia, trabalho, criança, eletrocardiograma, radioterapia, cobranças, bati o carro, esqueci a reunião, bati boca com o cliente, não entreguei o projeto na data, tenho que levar o filho para passear, ele está de férias, esqueci da hora de comer, ele perguntou se não iamos almoçar...
(...)
As aulas recomeçam. Natação, futebol...
Um dia você sai para deixar seu filho na creche e ir trabalhar e de repente no meio do caminho você escuta ele falar: Mamãe, onde a gente tá indo??!!
Esqueci de deixar ele na creche.
Volta tudo.
Perdi a hora da reunião...
Você não está mais dando conta do trabalho, mas a obra não pára...
Vão arranjar outra pessoa. Você não serve mais.
Pára.
Pára tudo.
Senta e chora!!!
E chora...
Fazer o quê?
Correr para onde?
Não adianta...
Um dia você não corre mais. Não consegue sair. Fica parado, você não quer ver ninguém, atender telefone... Só te trazem problemas e você não tem mais como dar conta.
(Me deixem!! Quero ficar só!!)
Queria que alguém me levasse, me pegasse no colo, vivesse por mim...
Mas não tem ninguém.
Tem o filho que precisa de você.
Apenas por isso acho que consegui reagir.
O carinho dele me deu forças, até porque qualquer vacilada minha poderia perder ele para sempre.
Reuni todas as forças lá no fundo para não perder o trabalho.
Ainda está muito difícil, mas sinto que o pior já passou, não sei até quando, mas não posso parar.
Acho que consegui superar pois tinha uma razão que foi maior do que eu. Não sei como teria sido se não tivesse meu filhinho.
Acho que teria chutado o balde.
Tenho plena consciência de que eu não reagi por mim.
Minha vida perdeu totalmente o valor e o sentido.
A sensação era de total descaso com tudo, nada tinha mais sentido...
Não é covardia, é impotência.
Não é falta de inteligência nem falta de capacidade para resolver os problemas, é simplesmente a total falta de percepção do que está acontecendo, é a falta de perspectiva pois você não consegue ver além da angústia.
É a sensação de vazio que te prende e impossibilita.
Ninguém está livre de um dia se sentir assim, ou por falta, ou por excesso, alguma coisa desencadeia essas sensações.
Algumas pessoas se suicidam num ato de desespero.
Infelizmente, não dá para voltar atrás.
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(Este texto foi escrito por uma pessoa muito especial, cujo nome não divulgo por enquanto, pois ainda não perguntei a ela se poderia divulgar no BLOG. Mas, considero um bom texto, literariamente falando. Quanto ao aspecto emocional... bem, emoções, assim como as poesias, não se "explicam", porque, como diria Neruda, isso seria banalizá-las)
